Ele, INFP

No supermercado, O Encontro. Sempre foram muito diferentes um do outro. Não se sabe como passaram vinte e dois anos e dez dias e oito horas e vinte e quatro segundos juntos. Supermercados são a terra das possibilidades. Onde acontecem os encontros. Os Encontros, na realidade.

— Olha, eu queria dizer que foi uma grande besteira termos terminado nosso casamento daquela maneira, daquele jeito tão precoce, tão impulsivo. Eu te amo e eu tenho certeza que você me ama também e eu sei que esse vinho do Porto que você está comprando, você está comprando para tomar mais tarde pensando em mim. Nessa besteira. Foi a maior burrada de nossas vidas. Vamos voltar, sempre tivemos uma vida perfeita. Aquele divórcio foi impensado, nossa, você me faz tanta falta. Será que você sente o mesmo? Eu sei que sente, eu não posso sentir isso sozinha. Vinte anos não podem ser jogados fora dessa maneira, ainda mais quando existe um sentimento e esse sentimento é recíproco. Não se faça de idiota, eu sei que você sente o mesmo que eu e só reluta em admitir o que é óbvio! Lembra? A ruiva da sua vida? Você disse!

Ele, vendo a ex-mulher mexer a boca, tudo incompreensível. Tira os fones do ouvido e diz:

— Ãnh?

Ela fica estática. Absurdada, como ele pode se fazer de desentendido após tudo, fingir que não ouviu.

Ele torna a colocar os fones de onde não deveriam ter saído. Ela torna a falar.

— Ruiva da sua vida, Arnaldo? Um estorvo! Pode dizer! Mocréia da sua vida, não é? Contratempo da sua vida? Eu… não posso deixar você escapar de mim assim, de novo! Aliás, você nunca comprou vinho do Porto enquanto esteve comigo! Existe outra! Aposto! Você me trocou! Meu Deus, acabo de descobrir que fui traída pelo meu próprio marido. Por vinte anos! Aposto! Só pode ser esse o motivo. Comemorando? Conseguiu o que queria? O divórcio? Sempre quis se livrar de mim, não foi? Seu escroto!

Ele tira os fones de novo.

— Ãnh? Quê? Desculpe, eu não estava escutando.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei, to rindo muito!