Já havia feito todas as merdas do mundo, todas as putarias possíveis. Era melhor assim, sem expectativas das pessoas, sem cobranças, sem querer, sem “eu achei que (…)”, sem nada, aquilo ali mesmo e ponto. Cansou-se, como todo mundo cansa um dia, sei lá, de tudo, das pessoas, da rotina, das ruas, preguiça de viver, alguma coisa assim, ela nunca soube explicar direito. Não era bem isso o que ela queria dizer, não sabia direito as palavras certas, ela nunca teve muito jeito com as palavras, não era de palavras, era de momentos, talvez ações. Mas ela sabia o que queria, só se fazia de tonta pra irritar. Adorava irritar os outros por prazer. Só pra disfarçar a solidão, a tristeza que ela tinha nos olhos, a infelicidade 96%.
Todo o dia meditava como é que raios se transformara naquilo. Naquela pessoa, naquele ser, com tantas idéias (ainda que absurdas, sonho impossível, sonhadora demais — incurável) e tantos pensamentos, tipo qualquer ser humano assim, pensando que numa dessas se perdeu na vida. Acho que com oito ou sete anos, sei lá. Um dia decidiu que queria ser livre e diferente de todo mundo, diferente de gente pedante (quase todo mundo na concepção egoísta e imbecil dela — quase todo mundo, menos os amores platônicos e breves).
Ela sentava num banco daquelas praças (o nome das praças ela ignorava, detestava nome e detestava gente pedante), cruzava e descruzava as pernas inúmeras vezes, com o objetivo de cruzá-las de maneira realmente desafiadora (pra sempre). Mentira. Ela queria admirar a manhã, só que não conseguia, porque o que mais tem no Rio de Janeiro é gente filha da puta e mal-educada pra caralho, que não consegue ficar em silêncio e apreciar a porra de uma manhã. Linda manhã — “se eu pudesse, faria essa manhã permanecer por dias”.
Sol que não frita, nostalgia que não dói, frio, respirar, solidão feliz, momento 1 e momento 2, felicidade que não é descomunal e nem tão escrotamente intensa, mas que na realidade é satisfatória coisa e tal. Ela ficava de um jeito indescritível quando não conseguia se lembrar do que ela considerava importante (é que eu acho que as memórias são muitas), enfim, os intermináveis momentos, que não passam nunca (ou que passam num segundo). Deus decidiu que quem agüentar Raquel por mais tempo (amigos de infância -> excluídos) ficará com ela. E até agora ninguém quis! Está ganhando do destino. Entretanto, Deus obriga algumas pessoas a ter que ficar com Raquel por um determinado período, como castigo por falta de obediência.
— Eu tenho essa necessidade de ser lembrada por você, quem quer que seja, alguma vez no dia (ela pensa, mas não diz: todos os dias), sabe? Escuta, hoje eu não te falei do meu dia, de ontem, claro, porque o de hoje está decorrendo. Ontem aconteceu tanta coisa, encontrei tanta gente, 1/3 eu não queria encontrar, é claro. Pessoas doem. Mas eu falei tudo o que tava no fundo da garganta, sabe? São 15:11. Preciso ir tomar café. Já volto.
Olha, eu queria tanto ser mais uma anônima qualquer. Não uma qualquer — mais uma anônima qualquer. É que eu tenho o meu cachorro, a minha mãe, os amigos, as amigas, blábláblá, o cara da esquina que sempre me dá “bom dia!”. Não posso me queimar com ninguém. Por enquanto eu só sou uma pessoa, meio que sem rosto, sem sentimentos, nem nada. Ninguém. Isso. Espera, vou tomar mais café.
Eu não sei. Não me importa mais. Acordei com um gosto ruim na boca, mau-humor (inclusive, parecia até ressaca), falando puta que pariu e o caralho, todos os palavrões do mundo. Deve ser sinal divino. Auto-explicativo.
Ela achava que estava com uma aparência péssima — “preciso comprar roupa, putz, que cara sofrível, detestável, argh”. Não pode parecer assim. Um cara loiro e alto disse pra ela, hoje (dizem, eu não sei, mas parece que o nome dele é Fabiano), que sentia saudade. Como assim? Saudade de ser vomitado por ela enquanto ela estava mega bêbada? Dos desabafos, é isso? Da sinceridade meio dolorida? Só pode. Mas a vergonha é tão grande que ela não sabe o que dizer, porque ele mais ou menos sabe o que ela sente no fundo d'alma. Ele conseguiu acabar com a imagem de menina do coração gelado que não precisa de ninguém em trinta minutos, dois segundos, duas horas, sei lá. Sem noção de tempo. Tempo pra quê? Abraço, ó, abraço! Abraços acabam com a imagem de coração gelado que não precisa de ninguém. Sei lá, o mundo é louco. As pessoas são loucas. Montada na própria loucura. Adorava todos os males do mundo. Adora, na realidade (excetue o aquecimento global).
— Você fuma?
— Não.
— Como não? O que é esse bastão cancerígeno na sua boca, então?
— Nada. Deu vontade.
— Mas, e se você se viciar?
— Não consigo me viciar em nada. Não sirvo pra ser fumante, nem alcóolatra, nem nada. Eu não sinto falta desses prazeres.
— Ui! Mas você fuma com o maior ar de marginal, hein? Puta que pariu!
— Obrigada. Eu também acho.
— Seu pulmão deve estar tão feliz.
— Acabou. Não fumo o filtro. Pronto, não faço mais isso.
— Eu te amo.
— Você sabe que é meu amorzinho? Tipo aquele jardim. É um jardim ali? É, não é?
— É sim. Flores, flor feliz, flor sorridente.
Dia desses ela andava pela rua, apressada (ou ela anda apressada ou ela anda em slow motion). De repente, ela pára e esquece por um segundo quem é. Acha bacanérrimo, ainda que não tenha se dado conta. Num segundo, ela se transforma em alguém. ________ (insira nome inventado aqui), é uma pessoa muito infeliz, aí um dia ela tropeçou e caiu no meio da rua e tal, aí ela encontrou o primeiro marido e tal, aí ele deu um livro pra ela, em branco, pra ela escrever a vida todinha, uma auto-biografia, alguma coisa assim, nem explicou direito, ela tinha um ar falso de sou-muito-melhor-que-você.
Só.Porque.No.Fundo.
Não.Tinha.Coragem.De.Assumir.
Que.Não.Era.Assim.
Auto-biografia, coisa moderna. Biografia escrita pelos outros, por alguém que não se conheceu, lá, muito cafona e tudo, sim, isso, pochete. Já fez um curso de dois dias de interpretação de sonhos e tudo.
Não faz planos da vida. Ela vive dizendo isso, que não faz planos, que vive o momento, blábláblá, todo um discurso decorrente de uma filosofia barata que ela não sabe desde quando tem. Talvez, desde sempre, sei lá. Um dia decidiu que queria herege (no mesmo dia que decidiu que queria ser livre), digna da fogueira. Não quer vida perfeita, não queria ter metade dos objetivos alcançados. A vida perfeita é essa mesmo, atual, sabe, ferrada e fodida, dentro duma solidão sem fim (“porque Deus determinou que quem conseguir agüentá-la por mais tempo ficará com ela e até agora… you know…”), onde se acha incompreendida e infeliz com picos de alegria, onde ela chora baixinho vendo algum filme ridículo.
Em suma e em tempo: Idealista e filha da puta.
Só porque se eu falar do meu ser na 3ª pessoa (sim, sou eu, Raquel) me faz ter menos peso na consciência pra desabafar sobre mim, falar sobre mim, falar sobre o que eu quiser, sem peso na consciência, sem parecer louca e egocêntrica (haha).
Todo o dia meditava como é que raios se transformara naquilo. Naquela pessoa, naquele ser, com tantas idéias (ainda que absurdas, sonho impossível, sonhadora demais — incurável) e tantos pensamentos, tipo qualquer ser humano assim, pensando que numa dessas se perdeu na vida. Acho que com oito ou sete anos, sei lá. Um dia decidiu que queria ser livre e diferente de todo mundo, diferente de gente pedante (quase todo mundo na concepção egoísta e imbecil dela — quase todo mundo, menos os amores platônicos e breves).
Ela sentava num banco daquelas praças (o nome das praças ela ignorava, detestava nome e detestava gente pedante), cruzava e descruzava as pernas inúmeras vezes, com o objetivo de cruzá-las de maneira realmente desafiadora (pra sempre). Mentira. Ela queria admirar a manhã, só que não conseguia, porque o que mais tem no Rio de Janeiro é gente filha da puta e mal-educada pra caralho, que não consegue ficar em silêncio e apreciar a porra de uma manhã. Linda manhã — “se eu pudesse, faria essa manhã permanecer por dias”.
Sol que não frita, nostalgia que não dói, frio, respirar, solidão feliz, momento 1 e momento 2, felicidade que não é descomunal e nem tão escrotamente intensa, mas que na realidade é satisfatória coisa e tal. Ela ficava de um jeito indescritível quando não conseguia se lembrar do que ela considerava importante (é que eu acho que as memórias são muitas), enfim, os intermináveis momentos, que não passam nunca (ou que passam num segundo). Deus decidiu que quem agüentar Raquel por mais tempo (amigos de infância -> excluídos) ficará com ela. E até agora ninguém quis! Está ganhando do destino. Entretanto, Deus obriga algumas pessoas a ter que ficar com Raquel por um determinado período, como castigo por falta de obediência.
— Eu tenho essa necessidade de ser lembrada por você, quem quer que seja, alguma vez no dia (ela pensa, mas não diz: todos os dias), sabe? Escuta, hoje eu não te falei do meu dia, de ontem, claro, porque o de hoje está decorrendo. Ontem aconteceu tanta coisa, encontrei tanta gente, 1/3 eu não queria encontrar, é claro. Pessoas doem. Mas eu falei tudo o que tava no fundo da garganta, sabe? São 15:11. Preciso ir tomar café. Já volto.
Olha, eu queria tanto ser mais uma anônima qualquer. Não uma qualquer — mais uma anônima qualquer. É que eu tenho o meu cachorro, a minha mãe, os amigos, as amigas, blábláblá, o cara da esquina que sempre me dá “bom dia!”. Não posso me queimar com ninguém. Por enquanto eu só sou uma pessoa, meio que sem rosto, sem sentimentos, nem nada. Ninguém. Isso. Espera, vou tomar mais café.
Eu não sei. Não me importa mais. Acordei com um gosto ruim na boca, mau-humor (inclusive, parecia até ressaca), falando puta que pariu e o caralho, todos os palavrões do mundo. Deve ser sinal divino. Auto-explicativo.
Ela achava que estava com uma aparência péssima — “preciso comprar roupa, putz, que cara sofrível, detestável, argh”. Não pode parecer assim. Um cara loiro e alto disse pra ela, hoje (dizem, eu não sei, mas parece que o nome dele é Fabiano), que sentia saudade. Como assim? Saudade de ser vomitado por ela enquanto ela estava mega bêbada? Dos desabafos, é isso? Da sinceridade meio dolorida? Só pode. Mas a vergonha é tão grande que ela não sabe o que dizer, porque ele mais ou menos sabe o que ela sente no fundo d'alma. Ele conseguiu acabar com a imagem de menina do coração gelado que não precisa de ninguém em trinta minutos, dois segundos, duas horas, sei lá. Sem noção de tempo. Tempo pra quê? Abraço, ó, abraço! Abraços acabam com a imagem de coração gelado que não precisa de ninguém. Sei lá, o mundo é louco. As pessoas são loucas. Montada na própria loucura. Adorava todos os males do mundo. Adora, na realidade (excetue o aquecimento global).
— Você fuma?
— Não.
— Como não? O que é esse bastão cancerígeno na sua boca, então?
— Nada. Deu vontade.
— Mas, e se você se viciar?
— Não consigo me viciar em nada. Não sirvo pra ser fumante, nem alcóolatra, nem nada. Eu não sinto falta desses prazeres.
— Ui! Mas você fuma com o maior ar de marginal, hein? Puta que pariu!
— Obrigada. Eu também acho.
— Seu pulmão deve estar tão feliz.
— Acabou. Não fumo o filtro. Pronto, não faço mais isso.
— Eu te amo.
— Você sabe que é meu amorzinho? Tipo aquele jardim. É um jardim ali? É, não é?
— É sim. Flores, flor feliz, flor sorridente.
Dia desses ela andava pela rua, apressada (ou ela anda apressada ou ela anda em slow motion). De repente, ela pára e esquece por um segundo quem é. Acha bacanérrimo, ainda que não tenha se dado conta. Num segundo, ela se transforma em alguém. ________ (insira nome inventado aqui), é uma pessoa muito infeliz, aí um dia ela tropeçou e caiu no meio da rua e tal, aí ela encontrou o primeiro marido e tal, aí ele deu um livro pra ela, em branco, pra ela escrever a vida todinha, uma auto-biografia, alguma coisa assim, nem explicou direito, ela tinha um ar falso de sou-muito-melhor-que-você.
Só.Porque.No.Fundo.
Não.Tinha.Coragem.De.Assumir.
Que.Não.Era.Assim.
Auto-biografia, coisa moderna. Biografia escrita pelos outros, por alguém que não se conheceu, lá, muito cafona e tudo, sim, isso, pochete. Já fez um curso de dois dias de interpretação de sonhos e tudo.
Não faz planos da vida. Ela vive dizendo isso, que não faz planos, que vive o momento, blábláblá, todo um discurso decorrente de uma filosofia barata que ela não sabe desde quando tem. Talvez, desde sempre, sei lá. Um dia decidiu que queria herege (no mesmo dia que decidiu que queria ser livre), digna da fogueira. Não quer vida perfeita, não queria ter metade dos objetivos alcançados. A vida perfeita é essa mesmo, atual, sabe, ferrada e fodida, dentro duma solidão sem fim (“porque Deus determinou que quem conseguir agüentá-la por mais tempo ficará com ela e até agora… you know…”), onde se acha incompreendida e infeliz com picos de alegria, onde ela chora baixinho vendo algum filme ridículo.
Em suma e em tempo: Idealista e filha da puta.
Só porque se eu falar do meu ser na 3ª pessoa (sim, sou eu, Raquel) me faz ter menos peso na consciência pra desabafar sobre mim, falar sobre mim, falar sobre o que eu quiser, sem peso na consciência, sem parecer louca e egocêntrica (haha).